terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Texto de uma indiana sobre a derrota


Esse texto eu vi em um blog de uma amiga minha e achei maravilhoso.
Como falei no post anterior sobre o filme 3 Idiots e a abordagem dele sobre educação na India esse texto veio encaixar perfeitamente ao que penso sobre o assunto e espero que esse debate continue e que as pessoas possam refletir sobre as suas vidas e as verdadeiras vitórias que temos na vida.

"Estava lá eu folheando o jornal quando pus os olhos no artigo abaixo. Um artigo que fala sobre a derrota. O tema ‘derrota’ é algo muito delicado aqui na Índia. Porque os indianos são criados para competir. E competir muito – pra ganhar. Como o país é superpopuloso, ser mais ou menos não dá. Você tem que competir bastante, chegando ao seu limite e esgotamento psicológico, para conseguir um bom posicionamento na vida. E por bom posicionamento, entenda-se um bom cargo em uma empresa reconhecida, que irá colaborar com o aumento do seu status perante a sociedade. Porque a sociedade importa muito, e você não pode envergonhar sua família perante ela. E o texto abaixo fala justamente dessas derrotas que sofremos na vida, e eu achei interessante a ligação feita com a mitologia indiana, o que nos revela muito sobre a cultura em questão, seu modus operandi e deixa a questão: como aplicar isso em prática diante de uma realidade tão competitiva /capitalista como a Índia atual?

Você é uma perdedora? Bom pra você.


Por Sudhamahi Regunathan – publicado no jornal The Times of India em 08/02/2010.

O prêmio é a vitória. No que quer que você faça, você tem que ser um vencedor. Seja aprendendo a cantar, a dançar ou apenas jogar. Nós vivemos com medo de perder. Nós temos tanto medo e freqüentemente ouvimos a frase ‘você é uma perdedora’ dita a uma outra pessoa.

Então, o que acontece quando você ‘perde’? Além do fato de que ganhar e perder são termos relativos, não é tão ruim assim perder de vez em quando. Às vezes, ao perder, você pode ganhar mais, especialmente quando você vive em uma sociedade onde você está constantemente em contato com outras pessoas que são expostas a situações diversas. É a pessoa que perde, pode-se dizer, que mantém o curso das coisas. Isso não é uma glorificação aos perdedores, mas uma focalização no desenvolvimento balanceado, ao invés de glorificar a obsessão por ganhar sempre.

Shiva e Parvati estavam jogando dados. Toda vez que Shiva jogava o dado, os torcedores de Parvati se exaltavam de alegria, ao passo que os companheiros de Shiva choravam de angústia. Parvati ganhou e Shiva perdeu. Certa vez, Shiva perdeu até a última peça de roupa que ele usava, para Parvati. ‘Por que você sempre perde?’, perguntavam os torcedores de Shiva. Eles tinham uma fé implícita em sua supremacia. Então como é que ele podia perder toda vez?

Shiva perdia para ganhar. Essa idéia precisa de uma reflexão para se assentar. No início, os dois eram um só, o estático e indiferenciado UM. Quando eles foram separados em dois, o Purusha e a Prakriti, houve a criação, e houve ação. De acordo com a mitologia, Narada, o poeta celestial, foi até Ardhanareeswara – a forma dois em um andrógina de Shiva e Parvati – e disse que ele iria ensinar um jogo interessante que iria acabar com a inércia e adicionar tempero em suas vidas.

Ele ensinou-lhes o jogo de dados. O jogo de Shiva com Parvati trata-se do jogo de Purusha com Prakriti, a inatividade com a atividade. A aposta era um abraço. Se Shiva vencesse, ele abraçaria Parvati. Seria bonito, se não fosse o fato de que, ao abraçar Parvati, eles retornariam ao estado inativo de Ardhanareeswara. Isso significa que todas as atividades chegariam ao fim; e seria o fim do mundo. Então era crucial que Parvati ganhasse, e que Shiva perdesse o jogo para que a atividade continuasse sem cessar. Na vitória de Parvati, a busca pelo divertimento continuaria...Shiva jogaria outra vez e talvez ganhasse e abraçasse Parvati. Mas ao perder o jogo de dados, ele estava ganhando no jogo da vida. E Parvati ganharia novamente e então o ciclo da vida continuaria.

Os seguidores de Shiva, no entanto, só podiam sentir humilhação e derrota. Eles choraram e rogaram que Shiva se desse melhor enquanto toda a comitiva de Parvati gargalhava. Mas o jogo continuou, com perdas e ganhos – o jogo da Criação e da Destruição, infinitamente.

Para manter o curso da atividade, para manter a harmonia e o equilíbrio, nós devemos experimentar tanto a vitória quanto o fracasso. Dessa forma, o jogo cósmico se certificará de que o ciclo continua. Em uma visão mundana, o efeito ‘gangorra’ cria oportunidades para todos. Quando o sucesso e o fracasso são experimentados, nós cultivamos diversas perspectivas, e aprendemos tanto a perder graciosamente como a ganhar com humildade.

Este é o segredo da união feliz. Na forma andrógina também havia união, mas de forma estática. Não parecia haver propósito, nem resultados. Quando eles foram divididos em dois para se tornarem duas entidades distintas, eles puderam deixar suas criações florescerem. E novamente eles se uniriam para apreciar o jogo. E é isso: a alteridade aumentando a união dos seres."

Para ver o post direto do blog da Flávia clique aqui

Se quiser ver o artigo em ingles direto do Times of India clique aqui

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